domingo, 13 de fevereiro de 2011

UMA ANÁLISE DAS RESTRIÇÕES DE CIRO FLAMARION CARDOSO A CERCA DO MARXISMO ALTHUSSERIANO

                                                                                                                     Por: Manoel Oliveira da Silva


Defendendo a tese de que Karl Marx teria realizado uma “descoberta científica sem precedentes na História”, ao fundar a ciência da história, Althusser procura apresentar as especificidades desta descoberta. Essa descoberta está contida imediatamente na teoria do materialismo histórico.
Uma vez definido o caráter científico da teoria marxista, a corrente althusseriana trata de abordar o objeto central da ciência da história, isto é, busca apresentar os elementos que caracterizam o materialismo histórico como “um novo método”. De acordo com Althusser, o termo “formação social”, empregado por Marx, pode ser interpretado como um conceito abstrato que substitui a noção ideológica de “sociedade”, designando “o objeto da ciência da história enquanto totalidade de instâncias articuladas sobre a base de um modo de produção determinado”.
Althusser cria uma metáfora espacial, pois diz que toda sociedade é formada por dois núcleos: Infraestrutura e Superestrutura. Infraestrutura é a produção econômica de uma sociedade, é tudo aquilo que serve de base para a superestrutura. Superestrutura é o jurídico e político, ou seja, direito e estado e o ideológico que são as idéias que legitimam a sociedade.  
O autor critica o marxismo estruturalista de Althusser, porque segundo ele, para Althusser a História é uma disciplina incapaz de produzir um conhecimento científico, devido a sua base ideologizada. De acordo com Althusser, não há para a disciplina de história a necessidade da investigação empírica, é uma negação da validade do empirismo. Para ele não é o homem que faz a história, mas que esta história é feita pelos conceitos da teoria marxista, que previa, segundo ele, o destino do mundo capitalista e que o homem é apenas impulsionado por estes conceitos.
Flamarion diz ainda que:
muitos dos intelectuais marxistas, sem deixarem de proclamar sua ligação com o marxismo e mesmo com os partidos comunistas, haviam de fato efetuado um perfeito mimetismo com o idealismo mais descarado. O que poderia ser mais insidiosamente reacionário do que um idealismo disfarçado como o único materialismo (já que o althusserismo era eminentemente terrorista e autoritário no debate intelectual)?.[1]
Para os althusserianos, segundo Flamarion, “o objeto do conhecimento não seria o objeto real: uma identificação de ambos os objetos não passaria de confusão empiricista”. Na elaboração do conhecimento diz ele, não é ao objeto real que se dirige o pensamento elaborador, o “trabalho” ou “produção” teórica e científica.
A perspectiva althusseriana a respeito do objeto real é, na verdade, metafísica: tal objeto é visto somente como a coisa individualizada – quando, para o marxismo, não só o mundo do pensamento é estruturado, como também o real.[2]
Para os althusserianos os fatos mentais são os únicos importantes no processo do conhecimento, (Flamarion 1988).pois ao criticarem a teoria mecanicista do reflexo e a atitude positivista diante dos “fatos” e “dados”, os althusserianos vão tão longe que se desfazem de qualquer teoria do reflexo, e portanto abandonam irremediavelmente o marxismo em favor de uma posição idealista.
De acordo com o pensamento dos teóricos althusserianos, segundo Flamarion:
O empirismo é uma corrente que acredita que a ciência opera com dados imediatos e particulares, que se imporiam por si mesmo através dos sentidos, posto que possuem um significado inequívoco; uma teoria da abstração que deriva o geral do particular, indutivamente; a negação de que o ponto de partida do trabalho científico sejam sempre conceitos gerais, e a afirmação da necessidade de partir do fato, do “concreto real”.
Ciro os rebate, e de um modo muito preciso diz: eis aí algo totalmente absurdo. Com “materialistas” de tal jaez, quem precisa de idealistas? [3] Flamarion falando de B. Hindess e P.Q. Hirst, que se diziam marxista mas que afirmaram com qualquer positivista ou estruturalista de direita que a História não pode existir como ciência. Para fundamentar esta afirmação, a única coisa que fazem é manejar argumentos muito surpreendentes sob a pluma de marxistas. Assim declaram que o objeto da História é o passado, que os historiadores “representam” como algo que já existiu, mas que de fato não existe concretamente (Ciro Flamarion 1988).  

     A primeira geração dos Annales Criticava a história “totalizante” do século XIX, valorizava a multidisciplinaridade, propôs novas fontes e métodos preocupação com modos de viver, sentir e pensar. Já a segunda geração “Era Braudel” Eclipsadas as preocupações com as mentalidades e a valorização da história econômica e material, concebeu os diversos tempos na história: Longa duração, Média duração, Curta duração.
Com a terceira geração nasce o conceito de mentalidades e tem se uma preocupação com as massas anônimas: modo de viver, sentir e pensar. Tem-se também o retorno da preocupação com o material iniciada na primeira geração e com a abertura demasiada a interdisciplinaridade, muitas vezes confundida com transdisciplinaridade. Foi durante o período dessa geração que a aproximação da narrativa provocou críticas quanto à possibilidade da história buscar o verossímil.
Foi nesta geração que a história abriu-se demais a “outros sabores” e pôs em risco a soberania da própria disciplina. Acusada de história sem dinâmica, ampla valorização da longa duração. Com as pesadas críticas o conceito de mentalidades declina a partir da década de 80, surgindo “novos campos” (história do gênero, da sexualidade, da vida privada). Mas o grande refúgio das mentalidades foi a História Cultural. Falando de Nova História Cultural, o Nova” foi herdado da “Nova História”, deixada pelos Annales e “Cultural” pela pluralidade de seu objeto.
Na década de 80, a história das mentalidades passava por uma crise e o marxismo declinava devido a queda de prestígios da URSS, o que provocou abertura para o crescimento da História Cultural. Há uma rejeição ao conceito de mentalidades (O consideravam extremamente vago), contudo não negam a importância do mental, da aproximação com a antropologia, a longa duração, dos temas das mentalidades, do cotidiano e da micro-história. Em suma, é um nome dado ao que nos anos 70 era chamado de história das mentalidades.
A Nova História Cultural é uma plural, apresentando diversos caminhos para a investigação. Suas características básicas são: Recusa do conceito de mentalidades, preocupação com o popular e valorização das estratificações e dos conflitos socioculturais como objetos de investigação.
A primeira e segunda geração dos Annales defendiam o reconhecimento do caráter científico da história. Havia uma luta contra o positivismo, a história não mais deveria ser vista como uma verdade absoluta, ou seja, não deveria ser história narrativa, mas uma história problema, onde o historiador buscaria no passado, através do estudo, soluções para o presente. Defenderia da interdisciplinaridade, que seria um dialogo com as outras disciplinas e principalmente com a antropologia. Os temas que interessavam aos historiadores deveriam ser ampliados, como o rompimento com o politicismo positivista e o economicismo marxista.
Tinha-se a ambição de fazer uma síntese histórica do social em sua totalidade e entender a articulação entre as várias instâncias do social – político, econômico, social e cultural. Houve uma fragmentação do social, uma perda da noção de totalidade, uma compartimentação da sociedade ou uma atribuição de autonomia as várias instância da sociedade.

Referencia:
CARDOSO, Ciro Flamarion. Mais um crepúsculo da razão? In: Ensaios racionalistas. Rio de     Janeiro: Campus, 1988. p. 93-117.




[1] CARDOSO, Ciro Flamarion. Mais um crepúsculo da razão? In: Ensaios racionalistas. Rio de Janeiro: Campus, 1988. p. 93-117.
[2] Idem. p. 104.
[3] Ibidem. P. 105.

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