domingo, 13 de fevereiro de 2011

PROJETO DE PESQUISA DA MONOGRAFIA




UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
FACULDADE DE HISTÓRIA
ORIENTADORA: PROF. DRª. MAGDA RICCI
ALUNO: MANOEL OLIVEIRA DA SILVA











PROJETO DE PESQUISA

DEPOIS DO OURO: IDENTIDADES LOCAIS EM SERRA PELADA 1992-2002








1 DEFINIÇÃO DO TEMA

Serra Pelada.


                                                    
2 OBJETO

De 1992 a 2002 - A decadência social e econômica de Serra Pelada.



3 OBJETIVOS

         Compreender como os atuais moradores de Serra Pelada recriaram sua identidade local a partir de memórias do passado do ouro. Estudar a “decadência” de Serra Pelada ocorrida desde que o garimpo foi fechado em 1992, até o ano de 2002, e entender como os que ficaram reelaboraram suas memórias.  

4 PROBLEMÁTICA
         Porque Serra Pelada tornou-se uma cidade politicamente morta? Foi somente por causa do fechamento do garimpo? O que estaria por trás da sua situação de abandono?  Qual a esperança dessa gente que persiste em continuar morando naquele lugar sem perspectivas reais de saída da situação de decadência em que ficou no pós ouro?  Porque a despeito de tantos desenganos e depois de tantas pessoas já terem desistido de permanecerem ali, outras continuam mesmo sendo vítimas de doenças vivendo em condições de extrema pobreza?


5 INTRODUÇÃO

         No Brasil, o ouro gerou mitos como a lenda do Eldorado, desde a época colonial. Recentemente este mito se refez com o que aconteceu em Serra Pelada no sudeste do estado do Pará, nos anos de 1980 a 1992. Lá, o “sonho de fortuna” foi manipulado e transformado na epopéia de mais de cem mil garimpeiros.

Para compensar os riscos, há os sonhos, as lendas, as esperanças do garimpo: eles garantem que, logo abaixo de onde estão cavando, há uma laje de ouro, ouro que não acaba mais (KOTSCHO, 1994: p.40)

          Quando terminou o ano de 1981, Serra pelada havia produzido mais de dez toneladas de ouro. A população cresceu a tal ponto que cidades foram fundadas ao seu redor, como a cidade de Curionópolis que foi criada em 1988, onde hoje se situa a vila de Serra Pelada.[1] Esta cidade foi criada para que pudesse abrigar as famílias dos garimpeiros, pois por ordem da liderança do garimpo, em Serra Pelada não podia entrar mulheres.
         Esta monografia visa analisar a importância das versões como forma de representação de uma realidade vivida. Para expor essa idéia serão expostos os relatos de algumas personagens que vivenciaram o auge e decadência de um dos maiores garimpo do mundo: Serra Pelada.
         Segundo CHAUÍ, “Jan Vanssinna[2] revela que o ponto mais alto e mais pleno de sentido, nó e núcleo dessa história, é o nome próprio no qual os eventos se concentram e se perpetuam”.[3] Sendo assim, os fatos ocorridos no garimpo recebem maior destaque quando contados por seus personagens. Ganham um caráter individual do que, na verdade, simboliza um todo dos acontecimentos.
         No livro Memória e sociedade, Ecléa Bosi dialoga com o conceito de versões e sua importância no registro do passado. Segundo ela, para que os personagens dêem depoimentos que se aproximem ao máximo dos fatos ocorridos, eles precisarão recorrer à memória. “A narração da própria vida é o testemunho mais eloqüente dos modos que as pessoas têm de lembrar. É a sua memória”. (BOSI, 1994: p.68).
         De acordo com SELIGMANN, “Há uma modalidade de memória que quer manter o passado ativo no presente. Ao invés da representação, o seu registro é do índice: ela quer apresentar expor o passado, seus fragmentos, ruínas e cicatrizes”. (SELIGMANN. 2003: p. 57). Com base nos estudos de HALBWACHS[4], BOSI afirma que a memória se constrói de acordo com o meio social envolvido. Ela depende do relacionamento do individuo com “a família, com a igreja, coma a classe social, com a escola, com a profissão; enfim, com os grupos de convívio e os grupos de referência peculiares a ele”. (BOSI, 1994: P. 54).
         SELIGMANN afirma que “o registro da memória é fragmentário, calcado na experiência individual e da comunidade no apego a locais simbólicos e não tem como meta a tradução integral do passado”. (SELIGMANN, 2003: p. 65).
         Em seus estudos sobre a memória BERGSON[5] (apud BOSI, 1994) cria uma relação conflituosa entre o que ele chama de memória-hábito e lembrança independente. Para ele memória-hábito se refere a “memória dos mecanismos motores”, traduzida por BOSI como “cotidiano ou adestramento cultural”. Enquanto, sufocada pela memória-hábito, as lembranças independentes são “lembranças isoladas, singulares que constituem autênticas ressurreições do passado”. (BOSI, 1994: p. 49).
         Segundo Halbwachs “a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com ajuda de dados emprestados do presente e, além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora se manifestou já bem alterada”. (apud SELIGMANN, 2003: P. 70).
         Reafirmando essa idéia, STERN [6] conclui que no ato de lembrar “o material indiferente é descartado, o desagradável alterado, o pouco claro ou confuso simplifica-se por uma delimitação nítida, o trivial é elevado à hierarquia do insólito; e por fim formou-se um quadro total, novo, sem o menor desejo consciente de falsificá-lo”. (apud BOSI, 1994: p. 68). Buscarei nesta pesquisa trazer à tona essas lembranças isoladas que representa um pouco a individualidade de cada um e não o excluem do todo ao qual pertencem. 
         Hoje, assentados sobre um dos mais ricos subsolos do mundo; cercados por aproximadamente, 100 mil bois gordos, de pecuaristas que transformaram a mata em pasto;[7] ameaçados por várias doenças (principalmente, dengue e malária), muitos dos moradores da antiga Serra Pelada são portadores de câncer, devido ao contato com água contaminada por mercúrio, são expropriados e migrantes. Que identidades têm estes moradores que insistiram em permanecerem em Serra Pelada?
         Cobiçada por empresas estrangeiras, alvo da ganância capitalista e "esquecida" pelo governo, a área do garimpo está em risco e seus moradores em frangalhos.

“Saltam aos olhos o abandono e a ausência do poder público em Serra Pelada, com seus barracos de madeira e suas ruas sem calçamento, a vila é um bolsão de miséria. No arraial, a vida é regida pela escassez, apesar da abundância de ouro no subsolo. Não existe rede pública de iluminação. Toda a luz da vila é clandestina, oriunda de uma subestação das redondezas. Tanta miséria num lugarejo que expeliu, oficialmente, 30 toneladas de ouro. A água também não recebe tratamento em um quinto das casas, que chegam a 1.218. Na década de 80, já foram 30 mil barracos. Dentista também não tem, assim como hospital. O atendimento à saúde é feito por um centro médico, que funciona com um clínico e uma parteira”. [8]

          Atualmente, os escombros da cava que um dia formou um dos maiores garimpos a céu aberto do planeta abrigam um imenso açude contaminado de mercúrio. Em torno dele, sobrevivem mais de 6 mil pessoas em situação de penúria, esquecidas no meio da floresta. Serra Pelada se tornou um “favelão de miséria” em cima de uma das mais ricas regiões do Brasil.                                           
         Nesta monografia pretendo mostrar o fim de um dos mais famosos garimpos do mundo. Estudar a “decadência” de Serra Pelada ocorrida desde que o garimpo foi fechado em 1992,[9] até o ano de 2002, e entender como os que ficaram reelaboraram suas memórias.
         Falando da decadência de Serra Pelada, o jornalista Ricardo Kotscho em um artigo que escreveu para a revista ÉPOCA edição de numero 125 afirma:
        
         “O quadro da saúde no povoado é dramático. Cresce em proporção geométrica o número de hansenianos (há mais de 100 casos de lepra registrados na Santa Casa) e de vítimas de malária (90 contaminados por mês), dengue, tuberculose, AIDS, câncer de pele e de pulmão. Na segunda-feira 2, o presidente da Fundação Nacional de Saúde, Mauro Ricardo Machado Costa, informado da situação pela reportagem de ÉPOCA, despachou para lá uma equipe com dez profissionais, entre médicos, enfermeiros e técnicos”. [10]

         Quanto à infra-estrutura urbana, não há vias pavimentadas, nem rede de esgoto. As residências são feitas de madeira e a maioria delas não possuem equipamentos mínimos de higiene para os moradores. Tudo isso somado ao desemprego e abandono do lugar pelas autoridades competentes, o resultado é a situação de miséria que se ver em Serra Pelada.
         Sabemos que a região é palco de disputas políticas, e não é minha intenção aprofundá-las aqui, mas mostrar no que se tornou a vila de Serra Pelada nos anos seguintes ao fechamento do garimpo até o ano de 2002, e como a população local interpreta este fim e hoje identifica o município de Curionópolis. É possível saber o que teria trazido tanta gente para Serra Pelada, mas ainda não se estudou devidamente o motivo que levou a população a ficar em Serra Pelada.



6 JUSTIFICATIVA
         A idéia de escrever a respeito do problema social do distrito de Serra Pelada surgiu da necessidade de entender o porquê daquela gente permanecer ali, vivendo sem infra-estrutura, com pouca assistência médica e educacional.
         Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2002, a região contava com uma população de 19.486 habitantes, totalizando 2.021 famílias. De acordo com essa fonte, mais de ¼ da população, com idade igual ou superior a quinze anos, não tinha tido acesso à escola; outros 25% eram analfabetos ou somente alfabetizados e quase metade não havia ultrapassado o 1º ciclo do ensino fundamental.[11]                Dados alarmantes como esse nos mostram a situação de abandono que vive a população    de Serra Pelada
         De acordo com Armin Mathis, o perfil social do garimpeiro de Serra Pelada, no período áureo do garimpo, era como vemos demonstrado no quadro abaixo:



Origem
Maranhão
57%
Piauí
12%
Pará
9%
Outros estados
22%

Estado civil
Casados
52%
Solteiros
44%
Outros
4%

Tempo de garimpo
Até 3 anos
20%
Entre 3 e 5 anos
33%
Mais que 5 anos
47%

Nível de escolaridade
Alfabetizados
52%
Analfabetos
48%
Fonte: SESPA 1988.

         Se observarmos bem, veremos que a taxa de analfabetismo não melhorou de um período para outro, apesar do esforço do sistema educacional brasileiro em erradicar o analfabetismo no Brasil.
        Pretendo com esta monografia mostrar a disparidade entre o que foi o garimpo de Serra Pelada e o que se tornou aquele distrito após a exploração do ouro. Porque Serra Pelada tornou-se uma cidade politicamente morta? Foi somente por causa do fechamento do garimpo? Qual a esperança dessa gente que persiste em continuar em Serra Pelada vitima de doenças vivendo em condições de extrema pobreza?
         Na mesma pesquisa realizada pelo IBGE vemos que apesar de apenas 5% da população declarar-se desempregada, é baixa a proporção de pessoas com vinculo empregatício. A maior parte dos habitantes da região desenvolve atividades agropecuárias, e menos de 15% no garimpo. Mais da metade dos trabalhadores obtém até um salário mínimo por mês, e pouco mais de 5% recebem acima de 3 salários mínimos.
         Diante destes fatos, buscarei compreender a realidade vivida naquele distrito, suas dificuldades e a luta daquela gente que a despeito de todos os problemas sociais que enfrentam ainda tem esperança de um dia mudarem de vida, viverem com dignidade e saírem da condição lamentável de pobreza e abandono em que vivem.

7 METODOLOGIA
         O trabalho de pesquisa que pretendo realizar é para a minha monografia, e o método adotado para a realização deste trabalho será com fontes orais (entrevista), bibliográfica, iconográfica e documentos encontrados no acervo da Casa da Cultura de Marabá.
         Como sem dúvida vou ter que trabalhar com história oral, busquei também alguns autores que tratam do assunto. Tais como: Xênia de Castro, que escreveu uma dissertação de mestrado sobre história oral, Heloisa Braz de Oliveira Prieto, que escreve; “A Memória do sonho, um estudo sobre história oral e seus porta-vozes, os contadores de história”, dentre outros que também escrevem sobre história oral.
         Fiz uma pesquisa exploratória e levantamento de fontes secundária e documental para conseguir informações sobre o tema, a região e o período em caráter de análise. 
         Pretendo realizar minha pesquisa de campo visitando a vila de Serra Pelada, e convivendo lá com a população por algum tempo. Buscarei entrevistar os moradores mais antigos como: José Mariano dos Santos (Índio), Adão Victor Barbosa, motorista e ex-garimpeiro de Elnápolis – Bahia vive em Serra Pelada desde 18 de maio de 1981. Genilda Nunes Carneiro, de São Pedro D’água Branca-Ma, chegou a Marabá em 1978 e entrou para Serra Pelada em 1985. José Alves da Costa o “Vô”, Garimpeiro e morador em Serra Pelada desde 1982. Marlucia Pinheiro de Oliveira morou em Serra Pelada por 13 anos, trabalha hoje como enfermeira no Hospital Municipal de Curionópolis. Sebastião Macedo, garimpeiro maranhense mora em Serra Pelada desde março de 1980.
         As entrevistas feitas com esses moradores que presenciaram a glória de Serra Pelada nos áureos tempos do garimpo, me darão suporte para fazer uma analise comparativa dos dados documentais sobre o garimpo e a situação de declínio que se abateu sobre a vila de Serra Pelada desde que foi oficialmente fechado o garimpo em 1992, e o que se tornou desde então, Serra Pelada.     







8 CRONOGRAMA

MÊS / ANO
Atividades
Maio e junho
Preparação do projeto de pesquisa
Julho
Entrega do projeto de pesquisa
Setembro
Inicio da pesquisa
Dezembro
Revisão da pesquisa



9 FONTES
COMPANHIA Vale do Rio Doce. Desenvolvimento Social e econômico de Serra         Pelada:        um programa de responsabilidade social da CVRD; outubro 2003.

CASA da Cultura de Marabá:

·         Pronunciamento feito pelo Dep. Sebastião Curió em Plenário no dia 17/10/1983
·         Interpelação do Dep. Sebastião Curió ao Srº. Ministro César Cals na Comissão de Minas e Energia no dia 10-08-1983
·         Dep. Sebastião Curió. Grupos poderosos querem a Serra Pelada. 21-10-1983
·         Projeto de Lei Nº. 2284/83, que concede autorização que os garimpeiros continuem seu trabalho em Serra Pelada.
·         Dep. Sebastião Curió. Permanência dos garimpeiros na Serra Pelada.
·         Pronunciamento do Dep. Sebastião Curió feito no plenário da Câmara no dia 26/10/1983.
·         Pronunciamento feito pelo Dep. Sebastião Curió no Plenário da Câmara no dia 14/10/1983.
·         Pronunciamento feito em Plenário no dia 27/10/1983.

·         Revista do garimpeiro, edição histórica. ANO I - PRIMEIRA EDIÇÃO. Novembro/dezembro de 1983.
·         Proposta de trabalho da Associação dos Comerciantes de Serra Pelada.
COOMIGASP - Cooperativa Mista dos Garimpeiros de Serra Pelada
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2002. Estatística da população de Serra Pelada.
10 REFERÊNCIAS

MATHIS, Armin. Serra Pelada. 10 anos da Estrada de Ferro Carajás. pp. 275-293. Org. Maria Célia Nunes Coelho e Raymundo Garcia Cota. UFPA/NAEA, Belém – Pará. 1997.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade - lembranças de velhos. 3ª ed. São Paulo: Cia. das     
      Letras, 1994.

CHAMUSCA, Amanda. PEREIRA, Fernanda. RODRIGUES, Raphaella. PARK, Eun                Yung. Serra Pelada: garimpo de sonhos e ilusões. Artigo sobre o documentário                                                                                                    Sonhos dourados, Fatos opacos. 2007.

MELO, Liana. Enviada especial - reportagem publicada no jornal O GLOBO, domingo,
      20-03-2010.

KOTSCHO, Ricardo. Serra Pelada uma ferida aberta na selva. Editora Brasiliense,                                                                                                    
      1994.

KOTSCHO, Ricardo. Revista Época. Edição Nº. 125, 09/10/2000.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes. Campinas: Unicamp, 2003.



[1] Através da Lei Estadual nº 5.444, sancionada pelo então governador Dr. Hélio da Mota Gueiros, de 10 de maio de 1988, o povoado de Curionópolis foi elevado à condição de Município.
[2] Jan Vanssinna foi um antropólogo belga que se dedicou ao estudo da história oral das tribos africanas.
[3] CHAUÍ, Marilena. Os trabalhos da memória. In: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade – lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994: p. 28.
[4] HALBWACHS, Maurice. Sociólogo francês que estudou a memória coletiva.
[5] Henri Bérgson. Filósofo e escritor francês estudou a memória a parir de idéias evolucionistas.
[6] William Stern. Psicólogo e filósofo alemão desenvolveu estudos sobre a psicologia da personalidade e da inteligência.
[7] Fonte: IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - Censo Agropecuário 2007.
[8] MELO, Liana. Enviada especial - reportagem publicada no jornal O GLOBO, domingo 20-03-2010.
[9] As atividades na antiga cava foram suspensas em 1992, pelo então presidente Fernando Collor de Mello. Dado retirado do Relatório da Comissão Interministerial, criada pelo decreto nº. 99.385: 12 julho 1990.

[10] KOTSCHO, Ricardo. Revista Época Edição Nº. 125, 09/10/2000.
[11] Fonte: IBGE – Censo Demográfico 2002.

Um comentário:

  1. Prazer em conhecê-la, Manu. Eu sou Amanda Chamusca, uma das responsaveis pelo documentario "Sonhos dourados, fatos opacos" e pelo artigo que você citou.
    Fiquei curiosa pra saber "a que pé anda" o seu projeto...
    Beijos

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